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Abuso Sexual

“O que eu faço com aquilo que fizeram de mim”

Quero começar o texto de hoje, contando uma pequena metáfora que utilizo para explicar, na minha prática clínica, o que é o processo terapêutico. Os meus pacientes, ou ex-pacientes, saberão do que eu estou falando.

A Caixinha da Vida

 Desde quando nascemos, recebemos nas mãos uma caixinha. E eu dou, a essa caixinha, o nome de VIDA. Conforme o tempo vai passando, vamos nos desenvolvendo, nos relacionando, vamos vivenciando situações que vão sendo depositadas nessa caixinha chamada Vida. Situações essas que podem ser consideradas boas, ruins, felizes, tristes, alegres, satisfatórias e algumas de muito sofrimento. Num determinado momento do nosso “ser e estar no mundo” percebemos que nessa caixinha chamada vida acontece algo de estranho, e ela não tampa mais. Algumas pessoas podem, nesse momento, vivenciar um sintoma, outras pessoas, apenas uma inquietação. Sinal que essa caixinha pode estar cheia, trasbordando, ou com algumas coisas mal acomodadas. Quando um paciente chega para um processo terapêutico, o seu papel, inicialmente é abrir essa caixinha para que juntos possamos fazer uma grande faxina. Por isso, que simbolicamente digo que fazer terapia é fazer uma faxina na caixinha chamada vida, eliminando ou minimizando um “sintoma”. Fato é que algumas situações serão fáceis de se olhar e limpar, outras mais difíceis, e outras ainda, podem gerar no individuo a sensação de medo, impotência e as vezes, até muita repulsa.

 Bem… mas onde é que quero chegar com isso??

Não tenho como objetivo, neste texto, explicar de maneira teórico-técnica, do que se trata um processo terapêutico. Tenho o objetivo de propor uma reflexão sobre um tema, que na minha prática clínica é muito presente, e que de certa forma me intriga muito.

Abuso Sexual

Desde que iniciei na prática da Psicologia Clínica, esbarro na palavra ABUSO. Abuso no trabalho, abuso de drogas, abuso do dinheiro, abuso no casamento, abuso da comida, ABUSO SEXUAL.

Nós, seremos humanos, se abrirmos a nossa caixinha chamada vida, e olharmos para o nosso histórico, poderemos, sem dúvida, identificar inúmeras situações que possivelmente nos sentimos abusados.

Fato é que, talvez por eu ser também terapeuta sexual, os casos e relatos de ABUSO SEXUAL são bastante frequentes. E na minha prática clínica não aparece de forma diferente do que a literatura mostra. O Abuso sexual é uma atividade sexual, não desejada, em que numa relação de poder, existe alguém que desempenha o papel de agressor, e um outro alguém que desempenha o papel de vítima. (uma criança e um adulto, duas crianças com idades diferentes, um adolescente e um adulto, um médico e um paciente, enfim). Também, nesse texto, não tenho o objetivo de discorrer sobre as características do abuso, principais vítimas, principais agressores, como identificar uma criança abusada, enfim, até porque podemos encontrar todos esses dados facilmente na literatura. O meu objetivo é propor uma reflexão sobre “O QUE EU FAÇO COM AQUILO QUE FIZERAM DE MIM”.

 

Lina, 28 anos

Foi abusada por seu irmão mais velho durante 5 anos, dos 06 aos 11 anos de idade. Até hoje sente repulsa quando se lembra das tentativas do irmão em beijar seus seios e acariciar sua vagina. Lina seguiu calada, e na vida adulta, privou-se de um contato afetivo sexual. Quando resolveu estabelecer uma relação afetiva, notou que algo de errado acontecia. Involuntariamente, as suas coxas se contraíam e a penetração sexual ficava impossibilitada.

Juju, 25 anos

Foi abusada na infância por seu tio materno e também por um vizinho. Os dois abusadores eram pessoas queridas e afetivas com a vítima. Juju construiu uma ideia de sexualidade relacionada a sujeira e ao pecado. Aos 25 anos ainda não havia se aproximado de nenhum parceiro(a) com o objetivo de estabelecer uma relação afetiva-sexual.

Eva, 20 anos

Foi abusada sexualmente por um amigo querido da família. Vivia numa família de pouco afeto, irmã mais velha de 4 crianças. Era a preterida, por ser filha de um primeiro casamento de seu pai, e sentiu-se acolhida e querida pelas carícias que o tal tio a oferecia. Esse abuso durou um período de 1 ano (dos 10 aos 11 anos). Eva desenvolveu uma compulsão alimentar e um comportamento de automutilação. Desde os 15 anos, início da sua vida sexual propriamente dita, busca sempre relacionamentos abusivos, envolvendo promiscuidade e uso de drogas.

Realidades como a de Lina, Juju e Eva, infelizmente são comuns.

Vaginismo, Anorexia, Transtorno de Desejo Hipoativo, Automutilação, Tricotilomania, Depressão, Promiscuidade, Uso e abuso de drogas, são respostas que pessoas abusadas podem dar ao meu questionamento inicial, ou seja, O QUE EU, SER HUMANO ABUSADO, FACO COM AQUILO QUE FIZERAM DE MIM?

Inúmeras, podem ser as respostas. Muitas vezes, vivenciamos situações que influenciam diretamente na nossa forma de ser e estar no mundo. Somos seres dotados de criatividade  e espontaneidade, desde que nascemos, e vez ou outra, somos “podados” de continuar vivendo de maneira livre e saudável, nos tornando pessoas cristalizadas, envolto a doença mental. Quando entramos em contato de forma consciente com essa realidade, e “cuidamos disso”, somos capazes de dar respostas diferentes a vida, respostas essas,  ”adequadas” e saudáveis.

Quando eu, ser humano, me questiono,  “o que EU FAÇO com aquilo que fizeram de mim, me torno responsável pela minha própria história, podendo dar uma resposta diferente a minha própria vida, como ser autônomo, responsável por minhas próprias escolhas. E é papel do Psicólogo, na Psicoterapia, auxiliar na construção dessas novas respostas, respeitando aquilo que é possível para cada indivíduo, conforme a sua própria história.

 

Observação: Os nomes citados acima, assim como as estórias, são fictícios, criados com base em relatos da pratica clínica de consultório.

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